Novo formato de classificação da F1 engana e cria equilíbrio artificial na Hungria

O teste de um novo formato de classificação acabou por embaralhar a ordem de forças inicial do fim de semana da Hungria. Mas por conta da alocação de pneus, as principais equipes decidiram poupar seus jogos e limitaram a performance, e isso criou um equilíbrio fake

Em um olhar despretensioso pela tabela desta sexta-feira (21) da F1 na Hungria, alguém menos avisado poderia facilmente achar que o Mundial vive um de seus melhores campeonatos, algo semelhante ao icônico ano de 2012, tamanha paridade técnica. Afinal, Charles Leclerc surgiu como mais rápido do dia, com um Lando Norris apenas 0s075 atrás, sem contar que aparecem oito equipes diferentes no top-10, separadas por menos de meio segundo. E o líder do campeonato? Sequer figurou na pista. Com alguma atenção, outro alguém poderia imaginar que a chuva que desabou sobre o traçado magiar no TL1 possa ter provocado o caos. Porém, lamentavelmente, tudo isso não pode ser mais enganoso. Esse equilíbrio é artificial e criado por uma regra das mais estranhas já testadas pela Fórmula 1 nesta era do Liberty Media. O novo formato de classificação acabou por mudar o programa técnico dos principais times, e isso interferiu decisivamente na ordem de forças deste primeiro dia em Budapeste.

Acontece que a F1 vai usar a etapa húngara para avaliar um sistema diferente da disputa pelas posições do grid. A classificação e em si continua igual, dividida em três fases, com as eliminações costumeiras. O extra aqui é a alocação dos jogos de pneus: cada piloto tem 11 conjuntos de slicks à disposição, ao contrário dos 13 habituais, e também é obrigado a usar o composto duro no Q1, o médio no Q2 e o macio no Q3. Essa ideia, então, forçou uma mudança na estratégia de trabalho para o fim de semana, uma vez que é imperativo pensar não só na sessão que vai definir a largada, mas principalmente no que vai acontecer no domingo.

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Essa, por exemplo, foi a tática da Red Bull. Por isso, não surpreendeu ver Max Verstappen apenas em 11º — Sergio Pérez fechou só em 18º. Os taurinos aproveitaram a segunda sessão do dia para trabalhar muito em cima das atualizações do RB19, mas também em termos de classificação e ritmo de corrida. Ainda assim, foi um programa muito restrito, com baixa quilometragem e pouca informação. O bicampeão andou apenas com os pneus macios ao longo das atividades. Mas, como sempre acontece, ninguém foi mais veloz que Max em condições de prova, com maior carga de combustível.

"Não utilizamos muitos pneus diferentes hoje. Com este novo formato, os pneus ficam muito limitados, e não quis utilizar muitos hoje. Espero ter uma preparação melhor. É uma pena, tem muita gente aqui e basicamente não andamos muito. Vamos ver o que podemos fazer para melhorar. No momento, estamos apenas economizando pneus, o que não acho a coisa certa", criticou o líder do Mundial.

Quem também usou da mesma estratégia foi a Mercedes. A equipe alemã não apareceu nas primeiras posições, porque decidiu basicamente analisar o ritmo de corrida dos dois carros e, assim como Verstappen, usou apenas um jogo de pneus. No caso das Flechas Pretas, o conjunto escolhido foi o de médios. E é interessante perceber aqui que o Lewis Hamilton não foi capaz de imprimir o melhor desempenho. Na verdade, o heptacampeão conduziu dois stints parecidos, virando na casa de 1min24s2, enquanto McLaren e Aston Martin obtiveram performances perto de 1min23s7.

O desempenho aquém arrancou críticas do recordista de vitórias na F1. "O carro estava em seu pior momento hoje, vamos trabalhar na configuração esta noite. No ano passado, o carro estava péssimo na largada, mas demos a volta por cima. Espero que amanhã funcione melhor”, disse o piloto do carro #44, também reservando palavras para o novo formato da classificação. “Só tínhamos um pneu para essa sessão. Essa mudança não é um bom formato para este fim de semana”, completou.

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Diferentemente das duas rivais históricas, a Ferrari decidiu arriscar e lançou mão de jogos a mais de pneus, na tentativa de acertar a SF-23 para classificação, especialmente. É notório que o ritmo de volta única dos ferraristas é melhor, por isso o foco nesse quesito, bem como pela natureza do circuito de Budapeste de média e baixa velocidades. Leclerc foi o mais veloz do dia e, embora tenha trabalhado muito com o composto macio, chegou a usar um médio.

“Ainda que seja difícil analisar o desempenho das outras equipes, porque todo mundo está usando diferentes programações por conta do novo formato [de classificação]. É o que já esperávamos para o primeiro fim de semana dessa novidade”, afirmou Charles. "Fizemos tudo que planejamos fazer, e a sensação com o carro foi muito boa. Vamos ver o que será possível de conseguir amanhã. Sabemos onde dá para melhorar, algumas curvas em que o carro não era tão confiável. É muito claro para a equipe onde precisamos trabalhar”, emendou o ferrarista.

Lando Norris andou bem no TL2 da Hungria (Foto: AFP)

Em termos de ritmo de corrida, a distância para Verstappen é significativa na Hungria. O monegasco virou tempos na casa de 1min23s6, enquanto Verstappen andou 0s3 abaixo disso. Carlos Sainz, que terminou o dia em décimo, apresentou uma performance ainda mais preocupante, perto de 1min23s9.

E isso se agrava por conta da McLaren. Norris cravou o segundo tempo da sessão, mas foi o desempenho em condições de corrida que impressionou mais. A equipe laranja também precisou utilizar um jogo a mais durante o dia, mas o foco de Lando foi mesmo os compostos médios, que o colocaram em uma posição à frente não só da escuderia italiana, mas também da Mercedes e da Aston Martin.

“Foi uma boa sexta-feira. Estou relativamente feliz com o ritmo do carro, mas ainda precisamos acertar algumas coisas para a classificação. Senti que não pude tirar tudo que queria do carro em alguns pontos da pista, tem mais coisas por vir aí, mas começamos com bom equilíbrio”, afirmou o britânico.

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Por fim, ainda que a Alpine tenha colocado Pierre Gasly e Esteban Ocon no top-5 e que um atrevido Yuki Tsunoda tenha figurado em quarto, a real ordem de forças deve ser estabelecida já no terceiro treino livre deste sábado, quando a preparação para o fim de semana efetivamente começa. E nessas condições, Verstappen deve aparecer na ponta. A questão verdadeira é entender que terá o papel de melhor do resto. Apesar da artificialidade das regras, a briga na Hungria desta vez parece mais série entre McLaren e Ferrari, com a Mercedes e a Aston Martin tentando se aproximar.

GRANDE PRÊMIO acompanha AO VIVO e EM TEMPO REAL todas as atividades do GP da Hungria de Fórmula 1. No sábado, o TL3 está marcado para as 7h30, seguido pela classificação, marcada para as 11h. A largada fica para as 10h do domingo.