FIA revisa diretiva para impedir que equipes da F1 usem divisões para burlar teto de gastos

De acordo com a revista inglesa Autosport, a FIA emitiu uma diretiva para controlar os custos que as equipes fazem referentes a outros programas esportivos. A tentativa é impedir que haja transferência de propriedade intelectual que possa ser usada no desenvolvimento dos carros da F1

A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) resolveu endurecer ainda mais as medidas que determinam como cada equipe pode trabalhar dentro do limite orçamentário em cada temporada da Fórmula 1. A entidade emitiu uma diretiva para controlar também os custos relativos a outros programas esportivos, como projetos de barcos e até carros de passeio, numa tentativa de impedir que haja transferência de propriedade intelectual que possa ser usada no desenvolvimento dos carros da categoria.

A informação é do site da revista inglesa Autosport desta sexta-feira (23). Vários times do grid atual possuem divisões em suas fábricas voltadas para outros projetos, como a Divisão de Tecnologia Avançada da Red Bull. A McLaren, por sua vez, possui o setor Tecnologias Aplicadas, enquanto a Mercedes tem a divisão Ciência Aplicada e a Aston Martin, a Tecnologias de Performance.

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Mercedes, assim como várias equipes, possui departamentos de trabalho além da F1 (Foto: AFP)

Até aí, nada demais, mas a questão é que as equipes da F1 costumam empregar pessoal técnico sênior nessas divisões para explorar o conhecimento adquirido nas corridas — o departamento da Red Bull, por exemplo, é comandado por Adrian Newey. Em princípio, a intenção é que esse saber seja usado em outros trabalhos que serão comercializados mundo afora, mas a suspeita é que algumas estão manipulando o sistema e usando essas divisões para aprofundar o entendimento sobre os próprios projetos da F1 fora do teto de gastos.

É uma brecha, portanto, que poderia permitir às escudeiras um meio de trabalhar no desenvolvimento dos carros atuais fora dos US$ 135 milhões (R$ 644 milhões, na cotação atual) disponíveis para uso dentro da categoria. A FIA, então, revisou uma diretiva — conhecida como TD45 — que deixa claro que as equipes não podem fazer uso de tal propriedade fora de suas operações na elite do automobilismo mundial. Qualquer inteligência usada na F1 precisa vir do trabalho na categoria, e não de fontes extras ainda que pertencentes à mesma empresa.

A TD45 fala justamente sobre a propriedade intelectual, que deve ser contabilizada nos gastos das equipes, ainda que elas sejam livres para executar essas divisões de projetos especiais. O conhecimento da F1 pode ser repassado para esses departamentos para ser utilizado em interesses comerciais externos.

Ainda que o órgão que regula o esporte não tenha feito uma declaração formal sobre o tema, várias equipes procuradas pela publicação inglesa garantiram que estão dentro das regras. Uma fonte ligada à categoria, no entanto, confirmou à revista que o esclarecimento feito pela FIA desencadeou mudanças na forma como essas operações são feitas nas divisões das equipes.

"Isso teve um impacto. Alguns foram forçados a agir, pois perceberam que o que estavam fazendo não era mais permitido. A parte difícil é que estão fazendo isso desde 1º de janeiro, então houve um gasto até esse ponto que agora precisa ser resolvido e recuperado de alguma forma", disse a fonte.

Felipe Drugovich (Foto: Aston Martin/Divulgação)
Aston Martin também mantém trabalhos em departamentos além da F1 (Foto: Aston Martin/Divulgação)

O assunto, aliás, não é novidade, já havia sido ventilado pelo chefe da Alpine, Otmar Szafnauer. No início do ano, o dirigente falou sobre como as equipes grandes encontraram uma brecha para explorar o teto de gastos e citou justamente a realocação de funcionários.

“O que as equipes maiores estão fazendo agora é tentar explorar ou buscar uma compreensão melhor das brechas, ou ainda fazer algumas mudanças organizacionais para ter mais pessoas sob esse limite de gastos”, declarou Szafnauer na ocasião.

“Elas olham e pensam: ‘Sim, eu me livrei 100 pessoas, mas agora quero contratá-las novamente, pois, dentro do teto, encontrei vagas que não representam um salário fixo, ou então elas desempenham algumas funções de marketing, ou o que quer que seja, ou trabalham com o time temporariamente'”, continuou. “Ainda não chegamos lá. Acho que eles já chegaram, e essa vantagem ideal do início se dissipou”, finalizou Szafnauer.

A FIA tem investigado ainda mais detalhadamente os gastos das equipes este ano. Entende-se que o corpo diretivo visitou as fábricas das equipes nas últimas semanas para análise forense de suas finanças, sugerindo um questionário que agora conta com mais de 100 perguntas, muito acima do usado há um ano. Em 2022, a Red Bull foi multada em US$ 7 milhões (R$ 33 milhões) e recebeu uma redução em tempo de túnel de vento por violar o limite orçamentário durante a temporada 2021.