Quem termina em alta e quem ficou devendo na temporada 2021/2022 da Fórmula E

Com o ano da Fórmula E oficialmente encerrado, o GRANDE PRÊMIO inicia uma série de análises sobre a temporada 2021/2022 e começa por aquilo que todos querem saber: quem se deu bem e quem sai devendo para 2023?

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Stoffel Vandoorne enfim pôde comemorar seu primeiro título mundial no automobilismo, e a temporada 2021/2022 da Fórmula E chegou ao fim no último domingo (14). Após 16 corridas realizadas desde janeiro, nove vencedores diferentes subiram ao lugar mais alto do pódio ao longo da temporada, que culminou em mais um título duplo da Mercedes. Além disso, o eP de Seul marcou a despedida dos carros de segunda geração, que serão substituídos pelos Gen3 a partir do ano que vem.

Após um ano tão movimentado, que chegou a ter quatro pilotos de quatro equipes diferentes batalhando pelo título, o GRANDE PRÊMIO destaca os principais pontos da temporada e o que ela deixa de lição para o ano que vem. Quem sai em alta? Quem sai devendo? O que deu certo e o que pode melhorar? Nessa primeira parte, separamos cinco nomes para cada um dos dois primeiros quesitos, destacando aqueles que deixaram uma marca — positiva ou negativa — neste ano de 2022.

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Vandoorne fez da regularidade seu mantra para enfim erguer caneco da Fórmula E (Foto: Fórmula E)

Em alta

1. Stoffel Vandoorne

O primeiro nome da lista garantiu o topo justamente por ter levantado a taça da categoria na atual temporada. Stoffel Vandoorne esteve longe de ser brilhante, venceu apenas uma corrida no ano inteiro, mas cumpriu o plano traçado no início de 2022 por mais regularidade e chegou à última etapa do campeonato em situação muito confortável para garantir a taça.

O lema do belga no campeonato deste ano foi consistência. Os números de Vandoorne, por si só, explicam a conquista do título: pontuou em 15 das 16 corridas — a exceção foi o México, na terceira etapa —, acumulou oito pódios e se tornou o recordista de pontos em corridas consecutivas na categoria — atualmente, são 13 provas seguidas dentro do top-10.

O renascimento do piloto belga em 2022 contrasta com a decepção do fim de temporada em 2021, quando Stoffel precisou ver seu companheiro Nyck de Vries levantando uma taça que poderia ter sido sua. Este ano, não teve jeito: Vandoorne foi absolutamente cerebral, fez o trabalho sujo quando precisou fazer e soltou o grito de campeão entalado na garganta.

2. Mitch Evans

A verdade é que Mitch Evans poderia ocupar o topo dessa lista. O único fator que causou a derrota do neozelandês para Vandoorne no ranking foi a conquista mundial por parte do piloto da Mercedes, que teve no rival da Jaguar seu principal concorrente ao título de 2022. O que pesou a Mitch, entretanto, foi um começo de temporada extremamente fraco — que lhe custaria no fim.

Enquanto o campeão da temporada primou pela regularidade, Evans foi o contrário: somando altos e baixos ao longo do ano, o neozelandês venceu quatro corridas — ninguém conseguiu mais vitórias — e ainda assim precisou amargar o vice, já que não apresentou um rendimento constante ao longo do ano.

Foram quatro corridas sem pontos em 2022 — Diriyah 2, México, Nova York 1 e Londres 2 — além de outras duas — Diriyah 1 e Berlim 2 — em que saiu com apenas um tento. Para se ter uma ideia, quando Evans venceu pela primeira vez, em Roma, o campeonato já estava em sua quarta corrida e Mitch tinha apenas um ponto àquela altura, somado na estreia da temporada.

Assim, o neozelandês percorreu um caminho oposto ao do campeão: venceu muito, mas teve dificuldades para se manter entre os ponteiros quando esteve em situações desfavoráveis e demorou a engrenar no campeonato, assumindo a vice-liderança com a derrocada de Edoardo Mortara já no fim. Apesar do segundo lugar, amassou a concorrência do companheiro de equipe Sam Bird e chega absolutamente em alta para a disputa do campeonato de 2023.

Evans venceu quatro corridas e deixou claro que precisa ser considerado entre os postulantes ao título de 2023 (Foto: Fórmula E)

3. Edoardo Mortara

Terceiro colocado na classificação final do campeonato, Mortara poderia ter brigado pelo título até o fim — não fosse um fim desastroso de temporada. O piloto da Venturi começou o ano de forma muito superior a Evans, por exemplo, com uma vitória já na corrida 2 da etapa de abertura — e sua primeira pole da carreira em Berlim, feito que repetiu no dia seguinte. Chegou a abandonar duas vezes, em Roma 2 e Mônaco, mas seguia firme no encalço de Vandoorne até desembarcar em Nova York.

A partir da corrida do Brooklyn, entretanto, tudo mudou na vida de Mortara. O acidente bizarro que encerrou a primeira corrida do fim de semana alterou a jornada do suíço, que foi punido em 5s por desrespeitar uma bandeira amarela e caiu de quinto para nono, somando apenas três pontos — dois pela posição e um pela volta mais rápida.

A Venturi correu para consertar o carro no dia seguinte, mas Edoardo nem conseguiu ir à pista na classificação de domingo e teve que largar no fundo do grid — no somatório total, o fim de semana rendeu apenas cinco pontos ao piloto, que passou a ver suas chances pelo título seriamente prejudicadas.

A fase terrível se estendeu pelas corridas seguintes, com problemas no freio, uma rodada em Londres causada por disputa entre outros dois pilotos — Pascal Wehrlein e Sébastien Buemi —, e Mortara saiu da capital britânica zerado antes de abandonar a primeira corrida de Seul. No encerramento do campeonato, se despediu com a quarta vitória — recordista no quesito junto a Mitch Evans.

O campeonato do companheiro de Lucas Di Grassi teve uma primeira metade de postulante ao título, em que ficou sem pontos apenas nas corridas que abandonou. O início da segunda metade foi ainda melhor em Berlim 2, Jacarta e Marrakech. No entanto, viu tudo ir por água abaixo junto à chuva torrencial do Brooklyn e mais uma vez vai precisar adiar o sonho do título para sua primeira temporada com a Maserati, que vai incorporar a estrutura da Venturi em 2023.

Mortara foi outro que venceu quatro e aprendeu uma lição importante: é preciso ser regular (Foto: FIA Fórmula E)

4. Jake Dennis

Pode ser estranho ver o sexto colocado da temporada entre os pilotos que saíram em alta do campeonato, à frente por exemplo de Lucas Di Grassi — que terminou em quinto. A questão é que Dennis, mesmo sem o trem de força da Mercedes que potencializou as duas melhores equipes do campeonato, chegou aos mesmos 126 pontos do brasileiro — e de Robin Frijns — em sua segunda temporada na Fórmula E.

Para se ter uma ideia da conquista do britânico, seu companheiro de equipe Oliver Askew, que disputou seu primeiro ano na categoria, ficou apenas em 16º com 24 pontos em toda a temporada — só na vitória de Londres, Dennis somou 29; no fim de semana como um todo, alcançou 51 tentos. Não foram apenas os dois pódios em casa que destacaram o 2022 de Jake, no entanto: o piloto teve desempenhos memoráveis em Diriyah e Seul, onde acumulou seus outros dois pódios do ano.

O portal inglês The Race inclusive noticiou que a boa temporada do britânico suscitou interesse em outras equipes do grid, mas sua continuidade na Andretti está assegurada para 2023.

5. Sérgio Sette Câmara

Como é possível o 20º colocado de um campeonato de 22 pilotos sair em alta após conquistar dois pontos no ano inteiro? No caso de um titular da Dragon, pode acontecer. A pior equipe do campeonato correu com um motor Penske que até apresentava competitividade em ritmo de classificação, mas despencava nas corridas devido à falta de capacidade em regenerar a energia da bateria.

Assim, Sette Câmara tirou leite de pedra do carro vermelho e branco e conseguiu se classificar em algumas posições realmente competitivas, como o quarto lugar em Londres, o quinto em Nova York ou o sétimo em Berlim. A questão é que seja por motivos técnicos ou por punições, o brasileiro sempre via o ritmo cair e sentia a dificuldade de manter o carro da equipe no top-10.

Um dos momentos mais marcantes da temporada envolveu justamente o mineiro, que se revoltou com a baixa qualidade dos equipamentos da equipe e estourou via rádio logo após ver o sistema do carro dar uma pane e enterrar suas chances de sair com um ponto na primeira corrida de Londres. No dia seguinte, saindo de uma posição bem menos afortunada no grid, Sérgio enfim conseguiu escalar o pelotão e terminar em nono, o que concedeu os únicos pontos da equipe em 2022.

Uma conversa constante entre as garagens, de acordo com aqueles que acompanham o paddock da Fórmula E, é sobre o que o piloto brasileiro poderia fazer com um carro competitivo. A partir do ano que vem, com a mudança da Dragon para DS Penske e a contratação de Stoffel Vandoorne e Jean-Èric Vergne, Sette Câmara vai precisar se realocar em outro time do grid para tentar dar o esperado salto. Apesar de não haver confirmação oficial, rumores indicam que o caminho do piloto será em direção à NIO.

Devendo

1. Nyck de Vries

Campeão em 2021, nono colocado em 2022: Nyck de Vries fechou uma temporada melancólica com — mais um — acidente em Seul, e a verdade é que o piloto neerlandês parecia fora de foco ao longo do ano inteiro. Com o desejo confesso de ir para a F1, o #17 não teve sua vontade atendida e pareceu estar perdido em certos momentos deste ano, sem nenhuma demonstração de que poderia almejar o bicampeonato.

Curiosamente, De Vries venceu mais do que Vandoorne. Enquanto o campeão só triunfou em Mônaco, Nyck abriu a temporada com o primeiro lugar em Diriyah — se aproveitando de um erro do próprio companheiro de equipe, que liderava a corrida — e subiu novamente ao lugar mais alto do pódio em Berlim, na oitava etapa. Ainda assim, uma sequência terrível entre as duas provas, sem nenhum top-5 no caminho, minou as chances do então campeão.

Nyck subiu ao pódio apenas três vezes na temporada inteira, com as duas vitórias e o terceiro lugar em Londres 2. Além disso, saiu zerado de cinco das 16 corridas e não chegou entre os cinco primeiros nenhuma vez além dos pódios que conquistou. Muito, mas muito pouco para quem tinha se sagrado campeão no ano anterior e ainda sonhava com um pulo à Fórmula 1.

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Campeão de 2020/2021, De Vries não foi nem sombra do que se esperava dele em 2022 (Foto: Mercedes)

2. Sam Bird

Sumido. Essa é a palavra que pode representar a temporada de Sam Bird, raramente comentado ao longo das transmissões da Fórmula E em 2022. Enquanto Mitch Evans, seu companheiro de equipe, levou a briga com Stoffel Vandoorne até a última etapa — ainda que artificialmente, já que a vantagem do belga era grande —, Bird simplesmente não apareceu em nenhum momento e fez uma temporada completamente sumida, em que não deu mostras de que tinha força para brigar sequer por uma boa colocação final.

Os 51 pontos alcançados pelo britânico — que não disputou a última etapa, em Seul, por ter quebrado a mão em Londres — representam menos de um terço dos 180 conquistados por Evans, mas o que mais chama atenção é a quantidade de corridas zeradas: sem contar as duas últimas, em que foi substituído por Norman Nato, Bird deixou de pontuar em seis das 16 provas do ano.

Apresentando muita dificuldade com o novo formato da classificação, Bird quase sempre precisou largar em pontos congestionados do pelotão, encarando uma avalanche de carros nas primeiras curvas. Assim, se envolveu em acidentes constantemente e abandonou três corridas, contra uma de seu companheiro de equipe — que aconteceu por uma quebra no carro. Para quem se acostumou a traçar o título como objetivo, o britânico sai com um gosto muito amargo na boca após a temporada fraca de 2022.

3. Jean-Èric Vergne

Outro nome que pode causar certa controvérsia, Vergne ocupa a lista dos que saem em baixa apenas por conta de seu fim de temporada. O francês foi o piloto mais regular do grid por boa parte do ano, e considerando que essa foi justamente a marca do campeão Vandoorne em 2022, pavimentava seu caminho de forma justa em direção à briga pela taça.

No entanto, o mesmo bicho que mordeu Mortara foi em direção a Vergne logo em seguida: Nova York. Foi a partir do Brooklyn que tudo começou a virar para o piloto da DS Techeetah, que saiu zerado de uma corrida pela primeira vez no ano — na 11ª etapa de um total de 16. ‘JEV’ não conseguiu mais se recuperar, emendando mais três corridas sem pontos e vendo as chances de título terminarem por ali.

Com um olhar enviesado, seria justo colocar o francês no mesmo patamar de Mortara, por exemplo, que também viu sua campanha escorrer pelos dedos na reta final. A questão é que enquanto o suíço venceu quatro corridas, Vergne desperdiçou oportunidades — chegou a largar na pole duas vezes — e saiu da temporada sem um triunfo sequer. Único bicampeão da história da Fórmula E, o francês vai partir para um desafio novo em 2023, ao lado do novo campeão na DS Penske. Resta saber o que a dupla mais vencedora do grid vai aprontar no ano que vem.

Jean-Èric Vergne, DS Techeetah, Fórmula E 2022, eP de Diriyah
Vergne indicou que iria em busca do tri, mas foi fogo de palha e despencou na reta final do campeonato (Foto: FIA Fórmula E)

4. Alexander Sims

De saída da Fórmula E para focar no endurance, Alexander Sims apareceu apenas nos momentos em que gerou algum tipo de confusão. Seja batendo em outro piloto ou perdendo o controle do carro sozinho, o britânico se notabilizou pelos acidentes em 2022 e deixou para trás a imagem competitiva dos tempos de Andretti, quando brigava por poles e chegou a vencer o eP de Diriyah 2 em 2019/2020.

Nem tudo foi um desastre para o britânico da Mahindra, que chegou a brigar por uma pole-position em Berlim e chegou até a final do mata-mata, sendo superado por Edoardo Mortara. Largando em segundo, não conseguiu manter o ritmo e perdeu posições até chegar em nono. A melhor colocação da temporada veio em Nova York, quando conseguiu terminar em quarto na segunda corrida do fim de semana.

As boas atuações, entretanto, acabaram ofuscadas pelos incidentes, e Sims fechou a temporada em Seul da mesma forma que abriu o campeonato em Diriyah: batendo no muro.

5. Antonio Giovinazzi

Ninguém entendeu ao certo a opção de Giovinazzi em assinar com a Dragon para 2022. Ainda que o grid da Fórmula E reserve uma opção atrativa a quem queira se manter competitivo fora da Fórmula 1 — como foi o caso do italiano, que precisou deixar a Alfa Romeo —, estava claro desde o início do ano que o carro da equipe americana não tinha a estrutura necessária para dar um salto de qualidade. Junte a isso os problemas de adaptação à categoria, e o combo é um ano completamente perdido na carreira de um piloto da Academia Ferrari.

Sem desmerecimento a Giovinazzi, que chegou ao nível mais alto do automobilismo na Fórmula 1, o carro da Dragon exigia alguém totalmente acostumado ao modelo de disputa da Fórmula E para que fosse possível sequer almejar alguns pontos. A categoria desafia os pilotos a gerenciarem as baterias de seus carros, que geram energia e são recarregadas nos momentos de frenagem.

Giovinazzi, além de pilotar um carro com sérios problemas de regeneração de energia, não estava acostumado a isso. O saldo: oito abandonos em 16 corridas, uma taxa de 50%, e uma sequência vergonhosa de cinco retiradas consecutivas entre Nova York 1 e Seul 1. Abusando da energia do carro na tentativa de ganhar algumas posições, o italiano quase sempre chegava ao final da corrida sem bateria restante, e das duas uma: recolhia aos boxes ou se arrastava até a linha de chegada.

Em uma cartada de puro desespero, Giovinazzi traçou uma das estratégias mais curiosas da temporada inteira da Fórmula E em Jacarta: após partir para cima do próprio companheiro de equipe e perder a disputa, rodando no meio da pista, Antonio optou por não se aproximar do pelotão e andar no fundo do grid, absolutamente distante do penúltimo colocado.

A intenção do ex-F1 era economizar energia e não forçar a bateria do carro da Dragon, esperando por um safety-car que o agruparia e então possibilitaria um ataque com a energia acumulada. O carro de segurança nunca veio, Giovinazzi não conseguiu se aproximar do pelotão e novamente foi chamado aos boxes da equipe para abandonar mais uma.

Ano perdido: 2022 de Giovinazzi não teve pontos positivos e foi para ser esquecido (Foto: Dragon)

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