Opinião GP: Treta com engenheiro apenas confirma: Verstappen vai varrer F1 2023

Max Verstappen venceu com a habitual crueldade o GP da Bélgica, somando oito vitórias em sequência na F1 2023, mas chamou a atenção a acalorada discussão que teve com seu engenheiro ao longo da corrida. O holandês não se contenta em apenas dominar, é preciso também impor um placar largo para a concorrência, seja dentro ou fora das garagens da Red Bull. E é exatamente esse traço de sua personalidade que vai fazê-lo reescrever a história

"COMO TODOS OS GRANDES PILOTOS, ele também tem algo mais". A frase de Christian Horner até pode parecer condescendente, mas é muito real. Max Verstappen vive um campeonato próprio e apresenta a cada domingo uma nova forma de domínio, o que já o coloca na mesma prateleira de nomes icônicos da Fórmula 1. A oitava vitória no GP da Bélgica não só ratificou a enorme performance do holandês em 2023, mas também o abismo que há entre ele e o restante do grid. Existe, sim, uma desvantagem técnica significativa entre a Red Bull e as demais equipes, mas o que faz o bicampeão vai além disso. E esse comportamento confirma outro fato: Max pode mesmo ganhar todas as corridas da temporada, ainda que assegure seu terceiro título muito antes da derradeira prova em Abu Dhabi.

Uma vez mais, Verstappen não se intimidou com a posição de largada ou com uma eventual mudança nos céus de Spa-Francorchamps. Partindo apenas em sexto, guiou com a frieza habitual nos metros iniciais para ficar longe de problemas. Aí foi uma questão de tempo. Ultrapassou aqueles que vinham à frente sem pestanejar, até alcançar o então líder, Sergio Pérez, a quem também não dispensou atenção especial, após o pit-stop. Foram necessárias apenas 17 voltas para assumir a primeira colocação.

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Confortavelmente na ponta, o holandês tratou de acelerar para impor a costumeira humilhação aos adversários. Cruzou a linha de chegada 22s3 antes do colega de equipe e mais de meio minuto à frente de Charles Leclerc, da Ferrari. Foi o décimo triunfo em 12 etapas até aqui. No Mundial de Pilotos, o rapaz soma incríveis 314 pontos, 125 a mais que o mexicano, vice-líder.

A matemática não mente, e os números por si só respaldam a afirmação de que só o filho de Jos Verstappen reúne condições de colocar a Red Bull em uma posição única e excepcional na história da Fórmula 1. Algo que nem a icônica McLaren de 1988 foi capaz e tampouco a Mercedes no auge de sua hegemonia no esporte. Mas há outros pontos que também fortalecem essa tese. Um deles é a própria equipe austríaca.

A fase dos taurinos é estelar e quase não se compara aos anos em que Sebastian Vettel arrebatou suas quatro taças do mundo. Sob a prancheta encantada de Adrian Newey, os energéticos projetam um carro fascinante e de pouquíssimos defeitos, diante de um regulamento complexo e cheio de armadilhas. O RB19 é a tradução da competitividade. É um modelo que se adapta a todo o tipo de pista e condição. Tem na velocidade de reta a característica principal, mas também rende bem em circuitos sinuosos, travados e pistas de ruas. E mais importante de tudo: não quebra. Há alguns anos, um dos grandes entraves para um desempenho mais agressivo dos taurinos estava na confiabilidade — enquanto a rival Mercedes voava em seu tanque de guerra. Agora isso é passado.

Alguém pode até argumentar que a Red Bull deve naturalmente desacelerar o desenvolvimento do carro a partir da segunda parte do campeonato. E isso, de fato, deve realmente acontecer, tanto pelas obrigações orçamentárias, quanto pela óbvia necessidade de já se preparar para o próximo ano, uma vez que os títulos parecem muito bem encaminhados. Então, ainda que seja esse caso, o RB19 ainda vai continuar comandando as ações, especialmente diante da oscilação dos oponentes.

Charles Leclerc foi o melhor do resto desta vez (Foto: AFP)

A Bélgica, de novo, deixou claro que a briga pelo posto de 'melhor do resto' segue imprevisível e em um patamar aquém do ponto de vista técnico. A Ferrari, pódio com Leclerc, não soube explicar o motivo pelo qual apresentou um ritmo mais forte de corrida, assim como a McLaren que, de um dia para o outro, sofreu uma queda vergonhosa de rendimento. Sem contar a Mercedes, que foi apenas razoável, enquanto a Aston Martin derrete a olhos vistos. Curiosamente, a Red Bull tem também sua dose de hesitação, no papel de Sergio Pérez, o que leva a lógica conclusão: Verstappen faz enorme diferença para o conjunto taurino.

"Tivemos uma boa largada, consegui passar Charles [Leclerc], que era um dos objetivos de hoje, e dali para frente estava fazendo minha própria corrida até Max [Verstappen] me ultrapassar no segundo stint. Ele estava muito rápido e não tinha nada que eu pudesse fazer para segurá-lo. Depois disso foquei apenas em completar a prova", contou um conformado Pérez após a etapa belga, antes de emendar: "Daqui pra frente estou focado em terminar todas as corridas no pódio."

Embora seja um carro próximo da perfeição, é Max quem desvenda os segredos e tira o máximo a cada domingo, sem erros ou acidentes. E mais, a esquadra austríaca não corre, por exemplo, os riscos que a Mercedes viveu em seus tempos de supremacia. Não existe a menor possibilidade de um acidente entre a dupla de pilotos, porque a diferença de performance é gritante. Isso vale para uma disputa de título — neste ano, ficou apenas no imaginário do mexicano, depois que o colega de garagem destruiu qualquer intenção de briga. Então, infortúnios dessa natureza estão descartados, a primeira parte de temporada confirma também.

Max Verstappen e Sergio Pérez: sem chance de disputa (Foto: Red Bull Content Pool)

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Portanto, há realmente algo a mais, como disse Horner. E houve um momento durante o GP da Bélgica que isso também ficou claro. A acalorada discussão entre Max e o engenheiro Gianpiero Lambiase durante a prova, por conta da decisão de Lambiase de chamar seu piloto aos boxes logo depois do companheiro de equipe. Pérez liderava a prova, fez a parada uma volta antes de Verstappen, mas o dono do carro #1 não gostou da estratégia, que depois se mostrou acertada. O ponto aqui é não só a dureza da conversa entre os dois, mas principalmente o patamar de exigência de Max. Quer dizer, ao fim e ao cabo, o holandês tinha melhor ritmo e se tornou ainda mais rápido no stint seguinte. E sabia disso, mas quis ter a certeza de que nada ficaria no seu caminho, que nada passaria ao largo de sua vista. Por isso, não hesitou em questionar e tentar valer sua posição.

E isso é algo que muito possivelmente vai levar a esquadra dos energéticos a um lugar nunca alcançado na Fórmula 1. "O que acompanhamos dia a dia é a capacidade que ele tem de cuidar dos pneus, de ler uma corrida, de extrair absolutamente tudo dela, e isso é muito bonito de se ver. Acho que ele está em sua melhor forma", completou um elogioso Horner, sem mentir. Porque Max está no auge e não se contenta com o mínimo.

Então, sim. A Red Bull vai seguir sua série invicta em 2023 e pelas mãos desse gênio chamado Verstappen.

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