Fórmula 1

Falha da Red Bull em Singapura faz 'Melhores do Resto da F1' brilharem. E não há favoritos

Finalmente, o sonho daqueles que imaginavam um campeonato sem a presença de Max Verstappen e a Red Bull se realizou — ainda que apenas por um breve momento. De maneira "chocante", como o próprio holandês definiu, a esquadra taurina se viu longe de qualquer briga pela pole, sequer se classificou para o Q3 e o resultado poderia ter sido ainda mais desastroso em Singapura. E com os energéticos fora de combate, a F1 se viu equilibrada e imprevisível. Carlos Sainz colocou a Ferrari na pole, mas por margem apertada, o que deixa tudo em aberto, enfim

Enfim, a Fórmula 1 2023 teve uma pequena amostra do que seria o campeonato sem a presença sublime de Max Verstappen e a Red Bull. E o resultado foi: o GP de Singapura viveu a melhor classificação da temporada. Não só pelo equilíbrio e imprevisibilidade, mas também pelas histórias secundárias que tornaram a definição do grid ainda mais divertida, incluindo o calvário experimentado pelos taurinos. A única nota negativa é mesmo os comissários de prova da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), que, mais uma vez, tomaram decisões irritamente aleatórias. De toda a forma, a 15ª etapa do Mundial se dá diante da deliciosa sensação do inesperado com uma Ferrari veloz, uma Mercedes louca para pular à frente, além de uma McLaren certeira à espreita.

Tudo começa nas garagens da Red Bull. Ainda que Christian Horner tenha dito antes da viagem a Singapura que essa era, provavelmente, a etapa mais complicada do ano para os austríacos, a experiência vivida até vem sendo ainda pior. De fato, o traçado de Marina Bay não é o ideal para o RB19, que gosta mais da combinação alta velocidade e trechos de carga maior. Uma excentricidade genial. Por isso, os engenheiros revisaram o assoalho e outros elementos aerodinâmicos para minimizar os efeitos da pista. Nada deu certo. Depois de uma sexta-feira, exaustiva, o time de Milton Keynes ainda promoveu alguns testes durante o TL3 e, antes da classificação deste sábado (16), os mecânicos tiveram mais trabalho ao mudar ambos os carros — toda a parte traseira do modelo #1 foi alterada. A equipe austríaca decidiu, então, voltar atrás e recorreu a um acerto bem-sucedido usado em outras etapas. Era a tentativa final de encontrar performance.

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De novo, não deu certo. Verstappen e Sergio Pérez enfrentaram dificuldades com uma configuração que apresentou todo o tipo de falha. Ora o carro saía de traseira, ora de frente. Assim como acontecera na sexta-feira, as freadas mais fortes também surgiram como mais um problema a resolver. Faltou aderência traseira, o que arrancou de Max alguns impropérios ao longo da sessão. No fim das contas, o chefão Horner revelou que, muito possivelmente, a configuração escolhida pela definição das posições acabou por comprometer o comportamento dos pneus.

"É confuso", admitiu o dirigente inglês. "O carro simplesmente não está respondendo às mudanças que fizemos. Tentamos muitas coisas diferentes com os pneus, mas nada funcionou. Esse déficit de tempo pode ser explicado por não colocar o pneu na janela ideal”, disse Horner. "Primeiro de tudo, precisamos colocar o carro em uma janela melhor, com o mínimo de mudanças que pudermos fazer. Este é o carro de maior sucesso que já fizemos, mas não está funcionando por aqui”, reconheceu.

Então, veio o desastre: Verstappen e Pérez acabaram limados no Q2 — foi a primeira vez, desde a Rússia-2018, que a esquadra se viu fora do Q3 com ambos os pilotos. E como desgraça pouca é bobagem, o holandês vai largar em 11º, depois de ser derrotado curiosamente por Liam Lawson, que obteve uma volta precisa no fim da segunda fase da classificação. O mexicano parte duas colocações atrás do colega time, mas foi de Max a frase mais emblemática sobre o desempenho taurino: "Foi uma experiência chocante."

E só não foi pior porque o bicampeão escapou de punições por três incidentes ao longo da sessão classificatória. O dono do carro #1 bloqueou a saída do pit-lane no Q1, atrapalhou Yuki Tsunoda e, depois, Logan Sargeant. Mesmo assim, os comissários não viram nenhuma irregularidade, diferentemente de outras ocasiões em que houve sanções por casos semelhantes.

Max Verstappen teve um sábado irreconhecível em Singapura (Foto: Red Bull Content Pool)

Mas se o sábado foi de terror para os energéticos, também foi de alegria para os rivais. A Ferrari seguiu a performance dos treinos e se impôs com velocidade e equilíbrio, em uma atuação muito semelhante a de Monza, há duas semanas, quando também conquistou o direito de largar da posição de honra do grid, com o mesmo Sainz. Só que a diferença agora é: no papel, esse não é o melhor traçado para a SF-23, mas as mudanças feitas pelos italianos deram conta do recado. A decisão de andar com menos asa continuou acertada, mas o que parece ter sido crucial foi mesmo a janela perfeita de funcionamento dos pneus.

Carlos foi capaz de se colocar bem nesse quesito em uma volta precisa e sem maiores intercorrências. Charles Leclerc comprovou a performance ao cravar o terceiro tempo, a 0s079 do companheiro de equipe. A confiança da Itália também parece ter dito algum efeito nas garagens vermelhas. "Foi um pouco como Monza, na verdade", comparou o espanhol. “Eu me senti muito confiante durante todas as sessões e coloquei isso no Q3. Apenas me concentrei em não cometer nenhum erro naquela volta. Ficar longe de problemas em Singapura normalmente compensa”, acrescentou.

Só há uma questão a ser debatida agora: o ritmo de corrida. O carro italiano não possui mesmo um desempenho tão chamativo assim, especialmente por conta do desgaste maior de pneus. Na verdade, a Red Bull aparece no topo da lista, mas sem a força habitual. Mercedes, McLaren e até Aston Martin são concorrentes perigosas neste sentido, especialmente a equipe laranja e o carro preto. A performance em condição de prova é um retrato do equilíbrio visto na tabela de tempos do Q3. As margens são pequenas, então os detalhes e a estratégia serão fundamentais nesse domingo.

"Sabemos que o ritmo de corrida é sempre a nossa fraqueza e onde pagamos o preço. Mas acho que a equipe tem feito um ótimo trabalho nos últimos finais de semana para entender o pacote e o carro. Definitivamente progredimos, tendo em mente que este circuito sempre combina com a Ferrari", explicou Sainz, que tem Leclerc em acordo.

George Russell, Carlos Sainz e Charles Leclerc formam o top-3 do GP de Singapura (Foto: AFP)

O monegasco revelou que se sente mais confiante do que no GP da Itália — e talvez esteja aí o plano ferrarista. "Estou mais confiante do que em Monza, principalmente pelo traçado. Singapura é mais fácil manter a posição de pista. Nas simulações de sexta-feira, a Mercedes, a Aston Martin e a Red Bull foram melhores que nós na gestão de pneus, por isso não descarto a possibilidade de amanhã termos que enfrentar uma corrida um tanto defensiva."

"Mas também não excluo a possibilidade de que, nesta pista, conseguirmos manter a primeira posição. Sabemos que aqui é muito mais difícil de ultrapassar do que nas outras pistas. Por isso, não vou mentir, estou me sentindo bem com o carro e provavelmente é o melhor momento da Ferrari, completou Charles.

De fato, esse é um enorme trunfo de quem está mais à frente. A posição de pista é o mais importante aqui e, por isso, a largada e a estratégia ganham ares de decisão. A Mercedes, por exemplo, aposta na tática. George Russell brilhou também ao cravar o segundo melhor tempo no Q3, apenas 0s072 de Sainz. Além de um ritmo consistente e de não enfrentar o temido desgaste de pneus, o W14 se mostrou rápido nas ruas de Marina Bay e possui ainda uma carta na manga. "Estamos em uma estratégia diferente em relação a todos os outros, então temos um conjunto extra de pneus médios amanhã, o que ninguém entre os primeiros tem”, explicou o britânico, que superou o companheiro Lewis Hamilton, que sai em quinto.

"Então, chegar ao Q3 e largar na primeira fila com uma vantagem estratégica é um lugar muito bom para se estar."

Ferrari e Mercedes, portanto, largam favoritas à vitória, mas não se pode descartar a McLaren de Lando Norris, ali na quarta colocação. O pacotão de atualizações surtiu o efeito esperado e o carro voltou a exibir um forte desempenho. O ritmo de corrida também é consistente, então a tática será fundamental. Além dos ingleses de Woking, a Aston Martin de Fernando Alonso é ainda um elemento importante. Apesar da sétima colocação no grid, o espanhol costuma crescer no domingo e é mais um elemento para a briga que se avizinha.

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Lando Norris vai largar na quarta colocação em Singapura: também na briga (Foto: McLaren)

Em uma condição normal, a disputa está aberta neste momento, mas Singapura surge imprevisível, de fato. Há uma chance de chuva — principal aposta da Red Bull, inclusive. Mas há também grande possibilidade de uma corrida tumultuada, marcada pela entrada de safety-car e outras ocorrências. Dessa forma, todo cuidado é pouco. E sobre a estratégia, a Pirelli aponta a parada única como o plano mais interessante.

"No papel, a melhor combinação envolve o pneu médio e duro. Pelo que vimos, não se pode descartar completamente o macio, mas é importante considerar que a vantagem que tem em termos de aderência em relação ao médio no início é significativamente reduzida devido ao curto percurso até à primeira curva. Além disso, este composto requer um gerenciamento cuidadoso com carga total de combustível no primeiro trecho na prova. No entanto, o macio pode valer a pena em caso de safety-car na segunda parte da corrida", disse Mario Isola, o chefão da Pirelli.

GRANDE PRÊMIO acompanha AO VIVO e EM TEMPO REAL todas as atividades do GP da Singapura, em Marina Bay, 15ª etapa da temporada 2023. No sábado e no domingo, classificação e corrida também contam com transmissão em SEGUNDA TELA, NA GPTV, EM PARCERIA COM A VOZ DO ESPORTE. No domingo, a largada está marcada para as 9h (de Brasília, GMT-3).