Como Alpine se impõe e ameaça domínio da Toyota no WEC 2022

O brasileiro André Negrão lidera o Mundial de Endurance com a Alpine com duas provas para o final. O objetivo é simples: acabar com a hegemonia da Toyota

Tal qual a Mercedes dominou a Fórmula 1 no início da era híbrida, a Toyota se tornou uma gigante no Mundial de Endurance. São três títulos consecutivos nos últimos quatro anos com impressionante folga. A Golias do WEC, contudo, parece ter encontrado na Alpine o seu Davi. E a equipe francesa é a casa do brasileiro André Negrão desde 2017, que agora busca um triunfo inédito na classe principal do WEC, no momento que a categoria vislumbra uma passagem de bastão.

Na atual temporada, a Alpine lidera com dez pontos de vantagem após quatro das seis provas. Já são duas vitórias no segundo ano no grupo principal. Depois de três temporadas na classe LMP2, o esquadrão francês se aventurou entre os hipercarros pela primeira vez em 2021, terminando todas as provas no pódio, mas sem vitórias. Com a introdução do Balanço de Performance (BoP), que tenta igualar as condições para os carros, o time gaulês conseguiu converter os aprendizados do ano passado e se tornou uma grande concorrente ao título em 2022.

“Eu acho que ano passado foi uma troca muito grande entre LMP2 e os Hipercarros, tanto para o nosso time quanto para os próprios carros, então foi realmente um aprendizado”, conta André em entrevista ao GRANDE PREMIUM. “A gente não conseguiu fazer nenhuma prova super satisfatória, óbvio que a gente pontuou em todas as corridas, a gente subiu no pódio em todas as etapas, mas sempre longe de ganhar. Até porque eles ainda estavam acertando o BoP, que hoje tem na categoria para poder igualar mais os carros. Ano passado eles ainda estavam aprendendo a mexer nisso tudo, então foi realmente uma escola, para poder melhorar esse ano”, explica.

“E a gente fez um super trabalho no ano passado para colher bastante dados das provas. Obviamente, a equipe ainda não estava tão preparada assim, mas como eu falei, ano passado foi realmente um aprendizado e nesse ano estamos colhendo os frutos do que a gente fez. Acabamos sofrendo um pouquinho, chegando em terceiro no campeonato mundial, mas esse ano a gente falou ‘meu, acho que a gente consegue, se o BoP for competitivo, a gente consegue fazer provas muito boas'”, acrescenta Negrão.

Se para a equipe a tarefa de entender o carro foi mais complicada, o paulista de 30 anos revela que para os pilotos o trabalho foi mais simples. Com restrições impostas ao desempenho dos modelos, a diferença na pilotagem é pequena, facilitando a vida do brasileiro e seus companheiros de equipe, os franceses Nicolas Lapierre e Matthieu Vaxivierè.

Carro #36 da Alpine durante as 24 Horas de Le Mans (Foto: Thomas Fenetre / DPPI)

“Os carros são muito parecidos. Em termos de chassi, é o mesmo. A célula de segurança, o chassi do carro, é a mesma da LMP2, é um pouquinho mais leve. Já o body kit, o resto do carro, é muito mais aerodinâmico do que na LMP2, mas, como eles reduziram tanto em termos de downforce, de motor, de peso do carro, então ficou muito parecido ao LMP2 antigo que eu guiava”, relata André.

Enquanto a Alpine usa um carro antigo da LMP1 feito pela montadora francesa Oreca, a rival Toyota, que tem dois carros na categoria principal, tem um protótipo muito mais desenvolvido, que conta com sistema híbrido, tração 4×4 e um tanque de combustível maior. Tudo isso dificulta a vida do time francês, que precisa se adpatar para vencer um adversário mais eficiente.

“O carro deles é um pouquinho mais pesado, carrega muito mais tecnologia que o nosso, então eles têm o formato híbrido, que ajuda no sistema de combustível, e eles têm um tanque de combustível maior. Por isso, a gente tem uma defasagem muito grande no pit-stop, pelo fato deles consumirem menos combustível. Nós não temos o sistema híbrido, então a gente gasta combustível mesmo. É um carro de oito anos de idade já, que pro automobilismo isso é uma infinidade”, afirma o brasileiro.

A expectativa por uma temporada melhor e brigando mais perto da Toyota era alta, mas nem o torcedor mais otimista da Alpine poderia esperar uma vitória já na primeira prova da temporada, nas 1000 Milhas de Sebring. Por mais que a pista fosse favorável ao carro, nem Negrão esperava um triunfo na abertura do Mundial de Endurance 2022.

“A gente não esperava isso já na primeira etapa, sabíamos que a pista de Sebring era uma prova que era muito favorável ao nosso carro, por ser um pouquinho mais leve, mas a gente sempre tem uma desvantagem muito grande em respeito à Toyota”, diz André.

Alpine comemora vitória em Sebring (Foto: Frederic Le Floch / DPPI)

A vitória em Sebring foi seguida por mais um bom resultado, com um segundo lugar nas 6 Horas de Spa. Com o carro #7 da Toyota abandonando a primeira prova após um forte acidente e o carro #8 tendo problemas mecânicos e nem sequer completando em Spa, a Alpine chegou como líder do WEC para as 24 Horas de Le Mans – a corrida mais emblemática do calendário. Com a expectativa mais alta possível, o resultado acabou sendo extremamente decepcionante para André, vencedor da tradicional prova em 2018 na classe LMP2: um 23º lugar geral e um sofrimento para apenas completar a corrida.

“Com certeza abalou, sim, porque é a corrida principal do ano para todos. Mas você pode imaginar que, para um time francês, correndo na categoria principal, tendo feito um terceiro no primeiro ano, já tendo vencido em Sebring, tendo feito um bom resultado em Spa, liderando o campeonato e chegando em Le Mans em primeiro, realmente tinha uma expectativa muito grande em cima de nós”, reconhece Negrão. 

“Mas aí vieram os problemas. Veio o BoP para começar, na sexta-feira eles reduziram muito o carro. Depois, a gente teve um problema de motor durante a prova, depois teve uma falha de embreagem, e isso acabou deixando todo mundo mais pra baixo durante a corrida. Acho que foram as 24 horas mais longas da minha vida, porque não acabava nunca. Para você ter noção, durante a prova inteira, a gente perdeu uma hora, entre as paradas, os problemas, a batida que meu companheiro de equipe teve, que teve que entrar, reapertar tudo, mudar tudo”, prosseguiu. 

“Foi realmente bem complicado, mas a gente tinha de terminar a corrida, então, naquele momento, não tinha muito o que fazer a não ser pensar em ir para cima, porque vale pontos preciosos, é uma prova longa e, mesmo assim, a gente terminou. Saímos de lá ainda assim liderando o campeonato com dois pontos de vantagem só. Acho que a gente fez muito bem de ter terminado. Ao mesmo tempo, foi muito ruim para toda a equipe, porque eles estavam esperando muito e foi bem abaixo, então foi realmente difícil”, lamenta André.

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24 Horas de Le Mans não saiu da forma que a Alpine gostaria (Foto: Thomas Fenetre / DPPI)

A chance de recuperação veio na quarta prova do ano, em Monza. Com menos potência do que as rivais Toyota e Glickenhaus, a Alpine se valeu de uma estratégia diferente para superar as deficiências nas longas retas e vencer pela segunda vez na temporada, com os dois carros da Toyota completando o pódio.

“A gente sabia ainda ali que o nosso BoP não era o melhor, inclusive a gente perdia pra Toyota e a Glickenhaus nas retas em Monza, sem motor é uma corrida muito difícil, e a gente fez realmente uma estratégia muito boa durante a corrida e conseguimos passar eles. Estávamos rápidos de corrida, mas, se não fosse a estratégia tão boa da equipe, a gente não ia fazer esse feito. Então, parabéns ao nosso engenheiro de pista, que nessa corrida fez um trabalho exemplar. Ele sempre faz, mas nessa ele se superou”, celebra o piloto da Alpine.

O resultado colocou a equipe francesa 10 pontos à frente do carro #8 da Toyota e abriu 30 de vantagem para o carro #7 da montadora japonesa na terceira posição. Restam agora duas provas: as 6 Horas de Fuji, no Japão, e as 8 Horas do Bahrein. Negrão acredita que a etapa nipônica deve ser mais difícil, ainda mais se a chuva aparecer, mas acredita que a decisão deve ficar para Sakhir, que favorece o carro da Alpine.

“Acredito eu, ganhando em Monza, provavelmente nosso BoP vai ser reduzido, então isso é bem complicado porque, se eles tiram muitos cavalos, não tem muito o que nós pilotos podemos fazer, por mais que a gente jogue na mão do estrategista, ele acaba ficando um pouquinho sem jeito, porque realmente não tem muito pra onde correr, e como é uma pista de alta, é muito complicado. O Bahrein já é uma pista para o nosso carro, por ter curvas mais de baixa, longa velocidade, então não dá muito tempo pra eles reabastecerem o sistema híbrido”, dizo brasileiro

“Eu acho que eles vão deixar para o Bahrein, para ter uma coisa mais legal. Mas eles não conseguem saber se um carro vai quebrar ou não. Se o carro da Toyota quebrar, o #8 principalmente, para nós seria ideal, porque aí a gente tem uma folga, um respiro um pouco maior, porque a corrida de 8 horas do Bahrein dá um terço de pontos a mais pelas duas horas a mais”, explica.

Alpine voltou a vencer em Monza (Foto: Frédéric Le Floch / DPPI)

Depois de conquistar o título na classe LMP2 em 2018-19, André sonha com um triunfo histórico na categoria principal. Desde o início do campeonato no atual formato em 2012, apenas as alemãs Porsche e Audi e a japonesa Toyota se sagraram campeãs. E o brasileiro garante que a Alpine está bem preparada para desbancar a gigante nipônica e obter um feito especial.

“Acho que a equipe está muito mais bem preparada e que tem tudo para dar certo até o final do ano. Se a gente conseguir fazer um feito como ganhar o campeonato mundial, para nós, tendo um carro inferior ao deles, muito inferior ao deles, conseguir esse feito, realmente seria uma coisa muito, muito especial”, conclui Negrão.

A competição no Mundial de Endurance só deve ficar mais forte. A convergência com o regulamento do IMSA, atraiu uma série de novas marcas para ambas as categorias. Para André, a mudança foi fundamental para salvar um campeonato que estava ficando cada vez mais caro e perdendo representantes.

“Eu acho que foi uma jogada fantástica o que eles fizeram, porque eles conseguiram unir dois campeonatos muito grandes de endurance em uma coisa só. Então, tanto o pessoal europeu, quanto o pessoal americano, você pode ir com seu carro, fazer um Petit Le Mans, fazer uma Daytona, as 12 Horas de Sebring com o carro que você está fazendo o mesmo campeonato na Europa”, elogia o brasileiro. 

A mudança surtiu um efeito rápido. A Peugeot fez sua estreia em Monza, enquanto a Porsche pode antecipar sua entrada, prevista para 2023, nas 8 Horas do Bahrein. Ferrari, Cadillac, BMW e Lamborghini são outras importantes marcas que vão entrar no Mundial de Endurance até 2024.

Largada das 6 Horas de Spa (Foto: João Filipe / DPPI)

“Então foi realmente uma sacada muito legal, porque você vê aí que grandes empresas estão voltando a fazer campeonato de endurance na categoria principal. Então a gente tem aí Cadillac, BMW, Toyota, a Ferrari tá entrando, a Alpine vai entrar em 2024, a Lamborghini tá vindo. Então despertou um interesse em muita gente, tanto do lado americano quanto do lado europeu”, conta Negrão.

“Eu acho que é uma questão de tempo para uma Mercedes entrar, para uma McLaren entrar, se elas verem realmente que o campeonato é uma coisa legal, que vai trazer resultado para a empresa, e é um campeonato realmente competitivo, acho que eles acertaram realmente na mosca. Acho que o campeonato estava morrendo pelo custo altíssimo e hoje o campeonato está crescendo muito”, valoriza o piloto de 30 anos. 

Justamente pelo crescimento e potencial do Mundial de Endurance é que Negrão não pensa em mudar os rumos da carreira. Depois de anos tentando chegar à Fórmula 1 e um ano na Indy Lights, André encontrou sua paixão no endurance. O objetivo é garantir o título deste ano e se manter na classe principal do WEC.

“No momento eu não tenho nenhuma categoria que eu penso ‘ah, eu gostaria de correr nela’, acho que estou muito bem resolvido onde estou. Certamente, se surgir alguma oportunidade de correr em alguma outra coisa, óbvio que eu posso fazer parte disso, mas, no momento, é continuar onde eu estou”, afirma o piloto da Alpine. 

“Não tenho nada assinado ainda com a Alpine, inclusive agora a próxima corrida a gente tem de estar bem decidido sobre o que vai fazer. Acredito que eu vou continuar na mesma equipe e ver o que o futuro me coloca na frente. Eu quero ficar para os hipercarros, logicamente depois de tantos anos na categoria estou mais do que preparado, mas ainda assim nada decidido”, revela Negrão.

A disputa pelo título inédito da Alpine no Mundial de Endurance se resume no dia 11 de setembro, com as 6 Horas de Fuji. O encerramento da temporada, com as 8 Horas do Bahrein, está marcado para o dia 12 de novembro.

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